dezembro 04, 2006

O guardião e suas ferramentas

Quase em frente ao Quarto do Poeta, no segundo andar da Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ). É ali que pulsa o coração que dá vida a todos os andares desse centro cultural de Porto Alegre. Necessário, imprescindível. E quase um milagre o fato de uma única pessoa dar conta do serviço sozinha. Sete andares na ala oeste, seis andares na ala leste. E uma média de 40 mil visitantes por mês, passeando por todas as salas, visitando as galerias, assistindo a filmes e peças de teatro.

A frase do diretor da Casa, Sergio Napp, já virou lugar comum, de tanto ser repetida. "Todo mundo pode sair. Mas se o Seu Vitor for embora, a Casa pára." E, a cada dia, um novo pedido. Um cano que estourou, um reparo no calçamento, uma lâmpada queimada, uma fechadura emperrada. É assim que Seu Vitor vai abrindo todas as portas. Sendo o responsável pela a manutenção da Casa, cuidando dela como se fosse a sua própria. Ele abre a entrada, para que eu conheça sua vida.

A história da CCMQ iniciou em 1983, quando uma Lei do Estado do Rio Grande do Sul transformou o falido Hotel Majestic em local para a cultura. A história de Vitor Julio Pereira da Costa começou bem antes disso, em 08 de dezembro de 1954. Primogênito de uma família de seis filhos, nasceu em Guaporé e mudou-se com a família para Porto Alegre com apenas um ano de idade. Na Capital, morou em diferentes locais. "Mudávamos muito de casa. Mas quando chegamos na Restinga, não deixei mais minha mãe se mudar", conta.

Seu Vitor quase não fala. Ou, para os desapercebidos, parece quase não falar. Pode passar por alguém no corredor e abaixar a cabeça. Mas, se correspondido com uma saudação, abre um sorriso fácil. Boca, dentes e olhar que retribuem rapidamente o carinho espontâneo recebido. Então, ele anda mais rápido, geralmente carregando alguma ferramenta ou utensílio. Talvez queira preservar o momento. Ou não atrapalhar. Ou simplesmente se entregar a essa timidez que está estampada no seu rosto. Segue e entra na primeira porta ou corredor.

Companheiro, nunca nega uma ajuda. Mesmo com a agenda lotada de tarefas. Pede cinco minutos, uma hora no máximo, e atende o apelo. Solicitude que conquista os colegas de trabalho ou as pessoas que circulam pela CCMQ. Seu Vitor usa calça jeans e camiseta. Às vezes um boné. Nas outras, mostra o cabelo encaracolado curto e escuro. Ele é negro, alto e magro. É ágil, sobe em escadas, alcança os cantos mais difíceis de certos andares. Mas uma queda prejudicou sua performance. Até hoje manca um pouco com a perna esquerda. E não vai ao médico. Resiste o que pode, foge mesmo dos consultórios. Pelo menos até que os irmãos façam uma assembléia familiar. Daí não tem mais jeito. "Fui obrigado. Eles vieram até aqui e me buscaram para a consulta e os exames." Fala isso brincando, como se tudo não passasse de 'arte' de criança.

Bem que sua sala na Casa de Cultura poderia ser o lugar perfeito para brincar. Durante horas. O local funciona como uma central de operações, almoxarifado, e sala de recordações. Pode pensar em algo. Deve ter ali, com certeza. Ferramentas, rolos de papel higiênico, metros de fio, fotos do Seu Vitor trabalhando, espelhos, quadros de pinturas, santinhos, e muitos armários, que formam uma estrutura quase labiríntica. No armário cinza de ferro, uma das portas guarda a memória. Ali estão todos os comprovantes de pagamento, as duas carteiras de trabalho, extratos, recibos. Uma vida inteira de papéis guardados em pastas e plásticos. “Olha aqui. Comecei a trabalhar na Casa em 1993. No ano seguinte, ganhei um cargo em comissão”, explica, segurando uma folha e esticando o braço para longe, para driblar a necessidade de óculos.

Hoje, ele percorre os corredores do centro cultural, conduz a bola, despista os zagueiros, dá toques mágicos, chuta a gol e sacode a rede. Não há o que ele não faça. De hidráulica a elétrica. Gosta de lembrar que aprendeu com alguns mestres do ofício, que trabalhavam na CCMQ desde a sua inauguração em 1990. "Seu João, Seu Luiz e o Vazenton me ensinaram muito. Aprendi coisas que não sabia, e aprendi também que se não sei, posso ficar acompanhando quem sabe, e daí aprendo. Na próxima, é comigo!"

Seu Vitor começou a trabalhar, ainda menino, como engraxate. Circulava perto do campo de futebol do Grêmio no bairro Azenha. E ficava por ali para ajudar os motoristas de táxi que jogavam bolão no início da noite. Fazia um troquinho. Uma foto dessa época, mostra o pequeno Vitor de cabelos compridos. Compridos demais. "Chamaram o fotógrafo um pouco antes da minha mãe me levar ao barbeiro para cortar o cabelo. Foi promessa", relata. Sua saúde era frágil, e dona Maria Luiza prometeu não cortar o cabelo do filho até que completasse sete anos. Nessa época, ele já circulava sozinho pelo Centro e outros lugares da cidade.

Quando jovem, ainda ficou internado por dois anos em um colégio na cidade de Carazinho, trabalhou com um chacreiro japonês que plantava cravos e alfaces, e foi verdureiro negociando caixas de uva e réstias de cebola. Mais uma vez, aproveitou uma oportunidade e, quando uma série de obras começou na Restinga, ele e um irmão carregavam baldes de água para distribuir aos pedreiros que sofriam com o calor do verão e com o sol. Foi contratado como servente de obra em dois toques. E, depois de freqüentar um curso no Senai, começou a trabalhar como pedreiro e ganhar por hora. "Sabe aquele prédio aqui no Centro, que era do Brizola? Trabalhei nele desde a fundação", conta.

Depois de atuar como zelador de alguns edifícios, foi funcionário de um depósito de bebidas. Como não era promovido, pediu demissão e aceitou fazer trabalhos extras e temporários. Num desses, foi construir as beiradas das duas cúpulas do antigo Hotel Majestic. Trabalho feito, recebeu elogio do diretor da CCMQ pela rapidez e eficiência. "E aí arrumaram uma boca para mim aqui", brinca.

Seu Vitor trabalha muito. Mas reconhece que já trabalhou mais. Agora, a rotina da Casa de Cultura é calma. Mesmo assim, não sobra tempo para perceber certas lendas e mitos do lugar. Como os fantasmas que, dizem, circulam pelo elevador ou nas salas mais remotas. Complicado para ele, é lidar com espectros da vida real. Ele não se lembra do próprio pai. Tinha cinco anos quando Seu Luiz faleceu. Na sua lembrança, ficaram gravadas uma festa de aniversário, uma traquinagem e a tunda que levou. "Mas da fisionomia dele, eu não lembro nada."

Com a voz calma, e os olhos sem me fitar, diz que não possui filhos legítimos. Talvez um, um menino. Mas nunca conheceu. Um pouco por desleixo, um pouco por vergonha. A ex-namorada contou da criança e perguntou se ele iria olhar filho. Ele não foi. "Ela arrumou um cara e foi morar em Viamão. No fim, ficou por isso mesmo", confessa. Um dia, encontrou no Centro o rapaz e o padrasto. Os três se olharam. Vitor reconheceu traços seus no rosto do filho. "Ele é mesmo a minha cara." Mas nenhum dos dois esboçou intenção de conversar. E ele deixou novamente a situação assim.

Há 18 anos, conheceu Vera Lúcia. Ele trabalhava de zelador em um prédio na Rua Anita Garibaldi. Ela era a empregada de um dos apartamentos. Estão juntos desde então e Seu Vitor adotou os dois filhos dela, Fabiano e Ângelo. "Essa é a minha família".

Os chamados não param. Na porta, no ramal interno, no recado de um funcionário. É demanda quase viva. O dono do café do sétimo andar quer trocar a pia. O banheiro do segundo andar precisa de reparo. De chave de boca na mão, Seu Vitor corre até lá, para evitar que o cano estourado inunde alguma sala ou mesmo o corredor. Antes disso, dá um sorriso e pergunta se eu ainda tenho tempo. Respondo que sim. Ele me pede que aguarde o seu retorno. "Esse é recém o começo. Eu ainda tenho muita história pra te contar".

4 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Muito bom mesmo. Adorei a história do Seu Vitor.

dezembro 07, 2006 3:52 PM  
Blogger Lu said...

Ontem foi aniversário do Seu Vitor. Entreguei a matéria de presente. E ele me disse: "Então, no ano que vem, autografamos na Feira?" Achei muito boa a idéia - hehehe...

E hoje, recebi a nota do pós: A...

Felicidade...

dezembro 09, 2006 3:08 PM  
Anonymous Anônimo said...

Lu,
abstraindo-se o fato de ser uma bela história de vida, a do seu Vitor, e até por isso mesmo, normalmente lemos um texto assim, chuliando* pelo final. Talvez uma pseuda-objetividade dos tempos modernos... Mas segui o seu texto, colhendo cada parágrafo, pelo simples prazer de ler algo bem escrito. Muito bem escrito. A+ !
Parabéns,
Marcelo
* Como não fui 'alfabetizado' em gauchês e no dicionário não tem, não sei se chuliar é mesmo com ch ou x.

dezembro 11, 2006 12:10 AM  
Blogger marta pereira barbosa said...

Essa é a história da minha família, Seu Vitor como tu chamas é meu irmão mais velho. Hoje ele mora comigo aqui na restinga foi despedido sem justa causa da casa de cultura, e vive a esperar a resolução do processo que move contra a firma contratante.MARTA Ondina Pereira

junho 17, 2012 11:30 AM  

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